Consulta geriátrica

O que se avalia na primeira consulta geriátrica

Entenda o que é avaliado numa primeira consulta com o geriatra, por que ela costuma durar mais tempo, e a partir de que idade vale procurar esse acompanhamento.

Uma das primeiras perguntas que ouço de quem nunca passou por um geriatra é: “mas isso não é a mesma coisa que consultar com o clínico?” Não é, e a diferença aparece já na duração da consulta.

Uma primeira consulta geriátrica começa pela história de vida do idoso, passa pelo histórico de saúde (cirurgias, internações, vacinas em dia), segue para a revisão completa dos remédios em uso, entende a rotina e o grau de independência no dia a dia, e só então avança para os domínios específicos da avaliação geriátrica ampla: cognição, mobilidade, humor, visão e audição, vitalidade e estado nutricional. Não é uma soma de perguntas isoladas. É uma construção progressiva, porque entender quem essa pessoa foi ao longo da vida muda a leitura de qualquer sintoma que apareça depois, e um problema de memória pode ter origem num remédio, uma queda pode ter origem num problema de humor não tratado, e isolar cada ponto sem olhar o conjunto costuma levar a diagnóstico incompleto.

Se você está decidindo se vale a pena agendar essa avaliação para alguém da sua família, este texto explica o que esperar da consulta em si. Quem já quer saber o valor pode conferir este outro texto sobre o modelo de atendimento particular. Para agendar direto, fale com a equipe pelo WhatsApp.

O que o geriatra avalia?

Começo sempre pela história de vida: onde o idoso nasceu, o que fez ao longo da vida profissional, como é a rede de apoio hoje, o que ainda dá sentido ao dia dele. Parece distante de medicina, mas não é. Essa parte da conversa é o que permite entender, depois, se uma mudança de comportamento é sinal de doença ou apenas reflexo de uma vida que mudou de rotina (a aposentadoria, a perda de um cônjuge, a mudança de cidade).

Depois vem o histórico de saúde propriamente dito: cirurgias anteriores, internações, doenças crônicas já diagnosticadas, e um ponto que costuma ser esquecido em consultas mais rápidas, a situação vacinal. Vacina contra gripe, pneumonia, herpes zóster e outras recomendadas para a idade fazem parte dessa revisão, porque prevenção também é avaliação geriátrica.

Só então entra a revisão completa dos remédios em uso, incluindo remédios de venda livre e suplementos, porque interações e excesso de remédio (o tema que trato neste outro texto sobre polifarmácia) são causa frequente de sintomas que a família nem associa a remédio.

Com essa base construída, avalio como é a rotina do idoso no dia a dia: se ele ainda cuida das próprias finanças, prepara a própria refeição, sai de casa sozinho, toma banho e se veste sem ajuda. É a partir dessa rotina que dá para entender o grau real de independência, e não apenas o que a família presume que ele ainda consegue fazer.

A partir daqui entro nos domínios específicos da avaliação geriátrica ampla. Cognição, com testes padronizados simples que ajudam a diferenciar esquecimento normal da idade de um sinal que merece investigação mais profunda. Mobilidade e equilíbrio, porque concentram boa parte do risco de queda a médio prazo. Humor, que em idoso raramente aparece como tristeza evidente e mais frequentemente como queixa física, irritação ou desânimo, o que faz com que passe despercebido em consultas mais rápidas. Visão e audição, dois sentidos cuja perda gradual o próprio idoso costuma minimizar, atribuindo à idade o que às vezes tem solução simples. E por fim vitalidade e estado nutricional, avaliando peso, apetite e força, porque perda de peso não intencional é sempre um sinal que meço com atenção.

Por que a primeira consulta dura cerca de 90 minutos?

Cada um dos pontos acima exige tempo próprio de avaliação, e o tempo é justamente o que costuma faltar numa consulta clínica padrão. Revisar com cuidado uma lista de dez remédios, entender a história de cada um deles, aplicar testes cognitivos e funcionais, e ainda ouvir o relato da família sobre mudanças percebidas ao longo dos últimos meses, não cabe numa consulta de quinze ou vinte minutos.

Existe também um motivo menos técnico e mais prático: idosos, principalmente os mais frágeis, processam informação num ritmo diferente. Apressar essa conversa reduz a qualidade do que se consegue captar, tanto do próprio paciente quanto da família que o acompanha. O tempo mais longo não é luxo, é o que permite que a avaliação seja de fato completa.

Mesmo com 90 minutos, não é possível resolver tudo num único encontro. Diante de um idoso com múltiplas queixas, remédios e domínios a avaliar, uma parte importante da primeira consulta é definir prioridades: o que precisa de atenção imediata e o que pode ser investigado com mais calma nos retornos seguintes. Essa priorização não é um recorte por falta de tempo, é decisão clínica: alguns achados pedem ação rápida (uma queda recente, um remédio claramente inadequado), outros ganham mais precisão quando avaliados ao longo de um acompanhamento contínuo, com a pessoa observada em diferentes momentos e contextos. A avaliação completa da integralidade do idoso, nesse sentido, é um processo que se constrói passo a passo ao longo do acompanhamento, não algo fechado numa única consulta.

Quais exames pode pedir?

Os exames pedidos dependem do que aparece na avaliação inicial, mas alguns costumam ser recorrentes: exames de função renal e hepática (que orientam ajuste de dose de remédios), hemograma, função tireoidiana e níveis de vitamina B12, porque alterações nesses pontos podem se manifestar como cansaço, confusão ou desânimo, sintomas que a família com frequência atribui apenas ao envelhecimento.

Quando a avaliação do quadro sugere necessidade de investigação mais aprofundada, exames de imagem podem ser solicitados. O objetivo, em todos os casos, é diferenciar o que é parte esperada do envelhecimento do que é uma condição tratável que está sendo confundida com envelhecimento.

A partir de que idade procurar um geriatra?

Não existe uma idade fixa que sirva de regra para todo mundo. O critério que uso na prática não é cronológico, é funcional: vale procurar avaliação quando começam a aparecer múltiplas queixas de saúde ao mesmo tempo, uso de vários remédios diferentes, ou mudanças perceptíveis em memória, equilíbrio ou disposição.

Dito isso, para a maioria das famílias, a partir dos 60 anos já vale considerar uma avaliação geriátrica de base, mesmo sem queixa específica, funcionando como um mapeamento inicial que facilita comparar qualquer mudança futura com um ponto de partida conhecido. O ideal mesmo era se todo mundo viesse mais cedo, com mais de 40 a 50 anos, para planejar antes mesmo do envelhecimento de fato chegar.

Como agendar

O agendamento é feito diretamente pelo WhatsApp, e o primeiro contato costuma servir para entender brevemente a situação do idoso antes de marcar o horário, o que ajuda a organizar a consulta com mais direção desde o início.

Se o idoso da sua família resiste à ideia de consultar, vale considerar telemedicina como ponto de entrada menos abrupto, um tema que trato com mais detalhe neste outro texto sobre quando o idoso não quer ir ao médico.

Perguntas frequentes

Preciso levar exames antigos para a primeira consulta? Sim, vale levar qualquer exame dos últimos meses, além da lista completa de remédios em uso, incluindo os de venda livre. Isso evita repetição desnecessária de exames e ajuda a construir o histórico completo já na primeira avaliação.

A primeira consulta substitui o acompanhamento com outros especialistas? Não. O geriatra atua de forma complementar, olhando o conjunto e revisando a interação entre tratamentos de diferentes especialidades, não substituindo o cardiologista, o endocrinologista ou outros médicos já acompanhando o idoso.

O idoso precisa estar lúcido para participar da consulta? Não é obrigatório. A consulta é adaptada ao nível de participação possível do idoso, e o relato da família complementa informações que o próprio paciente eventualmente não consiga fornecer com precisão.

Quantas pessoas da família podem participar da consulta? Não há limite rígido, e a presença de quem convive de perto com o idoso costuma enriquecer a avaliação, principalmente para relatar mudanças de comportamento observadas no dia a dia.

Depois da primeira consulta, o retorno é rápido? Depende do que for identificado na avaliação. Casos que exigem ajuste de medicação ou investigação adicional costumam ter retorno mais próximo, enquanto avaliações de base sem alteração relevante podem ter intervalo maior até o próximo acompanhamento.


Se você está considerando uma primeira avaliação para o idoso da sua família, fale com a equipe pelo WhatsApp e agende um horário.

Dr. Flávio Ferro, médico geriatra em Franca-SP e região. CRM-SP 189775, RQE 112872 e 98283.

Conteúdo informativo e educativo, sem finalidade de diagnóstico ou tratamento. Consulte sempre um médico. Responsável: Dr. Flávio Ferro (CRM-SP 189775 | RQE 112872 | RQE 98283).

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