Medicação

Idoso toma remédios demais? Riscos e desprescrição

Entenda o que é polifarmácia no idoso, os riscos de tomar muitos remédios ao mesmo tempo, e como o geriatra revisa a medicação com segurança.

Uma cena comum no consultório: a família chega com uma sacola cheia de caixas de remédio, porque ninguém mais sabe dizer de cabeça a lista completa. Isso, por si só, já é um sinal de que algo precisa ser revisado.

Não existe um número mágico que defina quando remédio virou remédio demais. O termo técnico é polifarmácia, geralmente usado para descrever o uso simultâneo de cinco ou mais remédios diferentes, mas o número sozinho conta pouco. Um idoso que usa seis remédios bem indicados, revisados com regularidade, pode estar mais seguro do que outro que usa três remédios mal ajustados entre si. O que importa não é a quantidade isolada, é se cada remédio ainda tem uma razão clara de estar ali, se as doses fazem sentido juntas, e se algum deles está tratando o efeito colateral de outro sem que ninguém tenha percebido essa cadeia.

Se a lista de remédios do idoso da sua família já não é revisada há tempo, ou se cresceu remédio após remédio sem uma reavaliação completa, vale entender como funciona essa revisão. Se preferir tratar diretamente do caso, fale com a equipe pelo WhatsApp.

Quantos remédios é “remédio demais”?

A definição mais usada na literatura geriátrica fala em cinco ou mais remédios de uso contínuo, mas trato esse número com cautela na prática clínica, porque ele mede volume, não qualidade da prescrição. Já vi idosos com oito remédios bem justificados, cada um necessário, e outros com três remédios que criavam mais problema do que resolviam.

O que de fato preocupa é a chamada cascata de prescrição: um remédio causa um efeito colateral, esse efeito colateral é interpretado como um sintoma novo, e um segundo remédio é prescrito para tratá-lo, sem que ninguém volte para reavaliar o primeiro. Isso acontece com frequência quando o idoso passa por vários médicos diferentes, cada um focado na sua especialidade, sem que exista alguém olhando para a lista completa como um todo.

Quais os riscos?

O risco mais direto é a interação entre remédios, que pode potencializar efeito colateral, anular o efeito de um deles, ou criar um efeito que nenhum dos dois causaria sozinho. Some a isso a questão do metabolismo: fígado e rim funcionam mais devagar no idoso, o que significa que remédios permanecem no corpo por mais tempo do que em um adulto jovem, aumentando o risco de acúmulo.

Confusão mental, quedas, sonolência excessiva, perda de apetite e constipação estão entre os efeitos mais comuns de polifarmácia mal ajustada, e o problema é que todos esses sintomas costumam ser atribuídos “à idade” em vez de investigados como possível efeito de remédio. Já tratei aqui, em outro texto, a relação direta entre número de remédios e risco de queda: vale a leitura complementar neste texto sobre quedas frequentes no idoso.

Existe ainda um risco menos falado: a adesão. Quanto mais remédios, mais complexo o esquema de horários, e maior a chance de erro, seja tomar dose dobrada por engano, seja pular doses. Isso vale tanto para o idoso que ainda organiza os próprios remédios quanto para o cuidador que assumiu essa tarefa.

O que é desprescrição?

Desprescrição é o processo estruturado de reduzir ou suspender remédios que deixaram de trazer benefício claro, ou cujo risco passou a superar o benefício esperado. Não é simplesmente parar de tomar remédio. É uma decisão médica, feita remédio por remédio, avaliando o motivo original da prescrição, se esse motivo ainda existe, e se a suspensão pode ser feita de forma segura, muitas vezes de forma gradual, para evitar efeito rebote.

Alguns remédios que faziam sentido aos 60 anos deixam de fazer sentido aos 85, porque os objetivos do tratamento mudam. O controle rígido de glicemia ou pressão arterial, por exemplo, que é desejável em um adulto de meia-idade para prevenir complicações a longo prazo, pode se tornar arriscado em um idoso muito frágil, para quem uma queda de pressão ou um episódio de hipoglicemia representa risco mais imediato do que o benefício futuro do controle apertado. Desprescrever, nesse contexto, não é abandonar o cuidado. É adequar o tratamento à expectativa e à qualidade de vida real daquele paciente específico.

Quais exames o geriatra costuma pedir?

A revisão de medicação começa antes de qualquer exame, com o levantamento completo e detalhado de tudo que o idoso usa, incluindo remédios de venda livre, suplementos e fitoterápicos, que a família frequentemente não menciona por considerar “natural” e, por isso, sem risco.

A partir daí, exames de função renal e hepática costumam ser solicitados, porque orientam diretamente se as doses atuais são seguras. Eletrólitos (sódio, potássio, cálcio) entram na lista quando há suspeita de que algum remédio esteja alterando esses níveis. Em alguns casos, um eletrocardiograma é pedido antes de ajustar remédios que afetam o ritmo cardíaco. O objetivo de todos esses exames não é apenas diagnosticar uma doença nova, é confirmar se o corpo do idoso está processando os remédios atuais de forma segura.

Essa revisão completa costuma ser parte central de uma primeira avaliação geriátrica, que também investiga cognição, funcionalidade e histórico familiar. Como ela funciona na prática está descrito neste texto sobre a primeira consulta geriátrica.

Perguntas frequentes

A partir de quantos remédios é considerado polifarmácia? A definição mais usada na literatura fala em cinco ou mais remédios de uso contínuo, mas esse número isolado importa menos do que se cada remédio ainda tem indicação clara e se as doses fazem sentido em conjunto.

É seguro parar um remédio por conta própria? Não. Suspender remédio sem orientação médica pode causar efeito rebote ou piora do quadro que ele estava controlando. A desprescrição precisa ser feita remédio por remédio, com acompanhamento.

Suplemento natural também entra na revisão de remédios? Sim. Suplementos, fitoterápicos e remédios de venda livre podem interagir com remédios de uso contínuo, e frequentemente não são mencionados pela família por serem considerados sem risco.

Qual a diferença entre clínico geral e geriatra na revisão de remédios? O geriatra é formado especificamente para avaliar como o envelhecimento altera o metabolismo de remédios e para tomar decisões de desprescrição considerando expectativa de vida e qualidade de vida, algo que exige treinamento voltado para essa faixa etária específica.

Confusão mental pode ser causada por excesso de remédio? Pode. Confusão, sonolência excessiva e quedas estão entre os efeitos mais comuns de polifarmácia mal ajustada, e costumam ser confundidos com sinais “da idade” em vez de investigados como efeito de medicação.


Se a lista de remédios do idoso da sua família cresceu ao longo dos anos sem uma revisão completa, vale essa avaliação. Fale com a equipe pelo WhatsApp e agende uma consulta.

Dr. Flávio Ferro, médico geriatra em Franca-SP e região. CRM-SP 189775, RQE 112872 e 98283.

Conteúdo informativo e educativo, sem finalidade de diagnóstico ou tratamento. Consulte sempre um médico. Responsável: Dr. Flávio Ferro (CRM-SP 189775 | RQE 112872 | RQE 98283).

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